PUBLICIDADE
Topo

Cristina de Luca

Normas do NYT para uso de redes sociais por seus jornalistas são criticadas

Cristina De Luca

15/10/2017 13h40

O New York Times anunciou na sexta-feira, 13/10, um conjunto de diretrizes atualizadas e ampliadas para o uso de mídia social por parte dos jornalistas. Mas recebeu muitas críticas.

Na semana anterior, a divulgação dos resultados de um estudo do ICFJ (Centro Internacional para Jornalistas) durante a conferência da Online News Association, em Washington, respondido por mais de 2.700 jornalistas e diretores de redações em 130 países, revelou que 72% deles publicam histórias e comentários em mídias sociais, regularmente. É prática corrente nas redações, que há tempo vêm tentando estabelecer normas de comportamento para seus profissionais. O que é aceitável e o que é reprovável na conduta de um jornalista nas mídias sociais?

Segundo o comunicado do New York Times, as novas diretrizes ressaltam o apreço da redação pelo importante papel que as redes sociais agora desempenham no jornalismo, mas também exigem dos jornalistas do veículo que tenham muito cuidado para evitar expressar opiniões partidárias ou editoriais sobre questões que o Times está cobrindo.

"Acreditamos que para continuar a ser a melhor organização de notícias do mundo, temos que manter uma presença vibrante nas redes sociais. Mas também precisamos ter certeza de que estamos envolvidos de forma responsável nas mídias sociais, de acordo com os valores da nossa redação", diz o texto. "Se nossos jornalistas forem percebidos como tendenciosos isso pode prejudicar a credibilidade de toda a redação".

Entre outros pontos, as regras determinam que:

– Nos posts das redes sociais, os jornalistas não devem expressar opiniões partidárias, promover pontos de vista políticos, endossar candidatos, fazer comentários ofensivos ou fazer qualquer outra coisa que prejudique a reputação jornalística do Times.

– Os jornalistas devem ser especialmente conscientes sobre questões que o Times está buscando cobrir objetivamente.

– Os jornalistas não devem fazer reclamações de atendimento ao cliente nas redes sociais. Embora possam ter uma queixa legítima, provavelmente terão uma consideração especial por causa do seu status como repórter ou editor do Times.

– Também devem evitar fazer parte de grupos privados e "secretos" no Facebook e outras plataformas que possam ter uma orientação partidária. E se abster de se inscrever para eventos partidários nas mídias sociais. "Se você está se juntando a esses grupos para fins de profissionais, tenha cuidado com o que você publica".

– O jornalista deve tratar os outros com respeito nas mídias sociais. Se um leitor questiona ou critica seu trabalho ou publicação de mídia social, pense duas vezes antes de responder.

– Se a crítica for especialmente agressiva ou desconsiderada, o jornalista abstenha-se de responder. "Também apoiamos o direito de nossos jornalistas silenciar ou bloquear pessoas em mídias sociais que são ameaçadoras ou abusivas. (Por favor, evite silenciar ou bloquear pessoas por simples críticas a você ou a seus relatórios.)"

– Caso se sinta ameaçado por alguém nas mídias sociais, informe seus supervisores imediatamente. O Times tem políticas para proteger a segurança de seus jornalistas.

– O jornalista seja transparente. "Se você tuitou um erro ou algo impróprio e deseja excluir o tweet, certifique-se de reconhecer rapidamente a exclusão em um tweet subsequente. Consulte nossa política de correções de mídia social para orientação".

– Tenha cuidado ao compartilhar scoops ou histórias provocativas de outras organizações que o Times ainda não tenha confirmado. "Em alguns casos, um tweet da história de outra empresa por um repórter do Times foi interpretado como o Times confirmando a história, quando de fato não o fez".

– Sempre que estiver em dúvida sobre uma publicação em redes sociais, consulte seu supervisor ou outros líderes da redação.

– Essas diretrizes aplicam-se a todos em todos os departamentos da redação, inclusive aqueles que não estão envolvidos na cobertura do governo e da política.

Por fim, o Times também encoraja seus jornalistas, caso ainda não estejam certos de que uma postagem de mídia social esteja em conformidade com os padrões da publicação, a fazerem-se cinco perguntas:

1. Você expressaria pontos de vista semelhantes em um artigo sobre as plataformas do Times?

2. Alguém que lê sua postagem tem motivos para acreditar que você está tendencioso em uma questão específica?

3. Se os leitores  vissem sua postagem e percebessem que você é um jornalista do Times, isso afetaria sua visão da cobertura de notícias do Times como justa e imparcial?

4. O seu cargo pode dificultar a capacidade de seus colegas efetivamente desempenharem seus cargos?

5. Se alguém olhasse para todo o feed de mídia social, incluindo links e retweets, eles teriam dúvidas sobre sua capacidade de cobrir eventos de notícias de forma justa e imparcial?

As críticas
Seria bom se cada jornalista, independente do veículo no qual trabalha, passasse a seguir essas recomendações, não é mesmo? Na opinião de muitos leitores do New York Times, não. Com a reputação do jornal ameaçada, e seus jornalistas e editores percebidos como tendenciosos, as novas diretrizes para publicações em redes sociais acabaram sendo duramente questionadas entre os 252 comentários, no total,  feitos no pé do texto que anunciava as mudanças.

"Com esta nova política, seus jornalistas mais seguidos deixarão de publicar no Twitter. Essa é uma perda real para muitos de nós que buscam um contexto adicional para notícias importantes", escreveu um deles nos comentários da publicação anunciando as novas regras.

"Todos têm direito a uma opinião, e com exceções geralmente óbvias, de expressá-la publicamente. As pessoas devem ser claras que falam como indivíduos, e não em nome de seus empregadores", argumentou outro.

"Tentando entender por que os repórteres do Times não podem fazer nas mídias sociais o que fazem todos os dias no Times", criticou um terceiro.

"Vocês estão realmente dizendo aos seus repórteres para praticar a autocensura para que este documento possa manter uma fachada de objetividade?" – questionou mais um. "Todos os seus repórteres devem ser livres para divulgar suas opiniões políticas. Mas, quando se trata de reportagens, eles devem ficar com fatos objetivos. As opiniões de uma pessoa não descontam os fatos quando o denunciam, assim como os fatos não podem ser alterados apenas porque você acredita e expressa o contrário".

"Qual é o objetivo aqui? A liberdade de expressão sob o ataque pelo NYT? Todas as vozes devem ser silenciadas até Trump ser a única voz?" – disparou outro.

"Considero um pouco ofensivo que os repórteres do NY Times não tenham permissão para ter uma vida privada onde possam expressar seus pensamentos e sentimentos pessoais sobre o mundo em que vivem", argumentou mais um.

"Os repórteres do NYT não podem dizer nada nas mídias sociais que os tornariam parciais e partidários. Então, qual é a diferença? Todos sabemos que são partidários e tendenciosos. Eles trabalham para o Times. Eles são democratas e liberais. Eles adoram Clinton e odeiam Trump e republicanos. Não precisamos ler seus tweets para saber disso", criticou duramente um deles.

"Isso se aplica aos colunistas? Parece bobo se isso acontecer", afirmou outro.

"Você está negando aos seus funcionários a liberdade de expressão?"!

"Não que esta seja uma má ideia, mas o momento, na minha opinião, tem a aparência de tentar esconder a extensão do viés de sua equipe", resumiu um mais objetivo.

OK. O times também recebeu mensagens de apoio. Mas a maioria delas questionava as críticas.

Moral da história: Parece que o Times atiçou a brasa, ao querer apagá-la! Errou tentando acertar, muito por conta do momento que vem atravessando. E reabriu um antigo debate: as redações devem criar códigos de conduta para jornalistas nas redes sociais?

"A maior aproximação dos jornalistas à sua audiência numa plataforma onde a delimitação entre o papel do profissional e do cidadão nem sempre é clara e, consequentemente, a exposição a que ficam sujeitos perante um público cada vez mais participativo, aportam novos desafios éticos e deontológicos ao exercício da profissão", afirma Cátia Mateus, em tese defendida na Universidade da Beira do Interior, de Portugal, e publicada na forma de livro pela LabCom Books.

Aplicarão os jornalistas, na sua atuação nas redes sociais, as mesmas regras deontológicas que se comprometeram honrar ao abraçar a profissão e que aplicam nos órgãos de informação onde trabalham? Cumprirão nestas redes, nas suas publicações, compartilhamentos ou "likes", os deveres básicos de isenção, rigor e imparcialidade? Serão suficientemente transparentes as fronteiras entre a sua esfera pessoal e profissional nestas plataformas?

E esse último dilema não se aplica somente ao jornalista. As redes sociais traçam novos caminhos para ir ao encontro do público e ganhamos uma nova exposição onde o domínio profissional por vezes se dilui com o pessoal.

Como é que você se comporta? E o que você espera dos profissionais que trabalham com você? E dos jornalistas que você lê?

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.