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#Conexão23: Manual prático para não protagonizar histórias de terror online

Cristina De Luca

30/04/2018 12h30

Por Silvia Bassi

Há dez anos, quando as redes sociais, os analytics, os smartphones e os sistemas de geolocalização estavam no seu nascedouro, uma pessoa que tivesse a sensação de estar sendo perseguida por estranhos, e que achasse que seus movimentos estavam sendo monitorados por câmeras e microfones ao redor, poderia ser diagnosticada como portadora de esquizofrenia com delírio persecutório. Hoje, a vida dos psiquiatras ficou mais difícil, já que a maioria dessas sensações são absolutamente verdadeiras para os cidadãos conectados do século 21.

Os escândalos recentes do Facebook e Cambridge Analytica e a criação de leis regulatórias e punitivas sobre dados pessoais, como o GDPR, da União Europeia, que entra em vigor no próximo dia 25 de maio, mostram que para resolver a "mania de perseguição digital" é necessário práticas éticas sobre uso de dados privados pelas empresas, legislação rigorosa e punitiva e muita informação para os usuários controlarem o que a tecnologia pode saber sobre eles, e não o contrário.

Em um artigo recente para o site Project Syndicate, o professor e escritor Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, chama empresas que lucram com dados pessoais dos seus usuários de "mascates online". Pega pesado, mas não deixa de ter razão. Sachs menciona uma conversa com a professora Sarah Spiekermann, da Universidade de Economia e Negócios de Viena (WU), que é co-chair do Institute for Management Information Systems, da WU, para estudos sobre privacidade e proteção de dados.

A professora lembra que "milhares de empresas estão envolvidas em uma cadeia de valor da informação digital que garimpa dados de qualquer atividade online e entrega, em menos de 36 segundos, conteúdo dirigido específico para os usuários. E isso não acontece apenas no Facebook, Google, Apple ou Amazon, mas também em plataformas de gestão de dados como Acxiom ou Oracle BlueKai, que possuem milhares de perfis sócio-psicológicos e atributos pessoais de centenas de milhões de usuários".

Um time de alunos da professora Spiekermann, do curso de Privacy & Security, publicou no final de 2017 um estudo com o nome sugestivo de "Mind your Data". Trata-se de um benchmark comparativo das práticas de privacidade e uso de dados pessoais de 25 diferentes serviços online, analisando empresas como Facebook, WhatsApp, Viber, Twitter, Instagram, GoogleMaps, Gmail, entre outras. Para cada categoria de serviço, os pesquisadores oferecem algumas "histórias de terror" verdadeiras, que dão bons motivos para querer recuperar o controle sobre seus dados pessoais, e dão dicas práticas valiosas do que fazer em cada um para garantir isso. Para a professora, é uma forma da universidade sair da casca acadêmica e influenciar diretamente cada pessoa de forma prática no dia a dia.

Foram pesquisadas cinco categorias de serviços online: Mensagens, Redes Sociais, Mapas ou serviços de localização, Agendas, e serviços de e-mail. Em cada uma das categorias, um grupo de apps mais relevantes foi avaliado e comparado, e cada app recebeu uma nota em sete diferentes quesitos que, segundo os pesquisadores, indica o quanto o app valoriza a privacidade e os direitos dos seus usuários. Deixando bem claro que as notas refletem a avaliação pessoal da equipe dos pesquisadores.

Os quesitos são: controle da informação (information control), controle da decisão (decision control), controle da decisão para audiências (decision control for audiences), controle de comportamento (behavioural control), paternalismo tecnológico (technology paternalism); design para a privacidade (privacy-by-design); padrões de privacidade amigáveis ao instalar (privacy friendly defaults). E ainda por cima avaliaram um oitavo item, que é o quanto o serviço tem apelo para o usuário a ponto dele abandonar a privacidade em troca da conveniência do uso.

Possivelmente é uma das peças de pesquisa mais úteis e objetivas sobre privacidade, riscos e boas práticas de uso de apps e serviços online, porque oferece critérios muito objetivos de análise e exemplos de arrepiar o cabelo das práticas obscuras de várias delas. Mesmo quem já usa os apps há muito tempo acaba sendo surpreendido por uma das dicas de uso consciente da tecnologia. Você nunca mais vai olhar do mesmo jeito para apps como Facebook, Messenger, Whatsapp, Viber, Twitter, Instagram, Waze, Google Maps, Google Calendar, iCal, Gmail, Outlook e iCloud. E vai considerar o uso de apps relativamente desconhecidas como Runbox, Tutanota, Simple, Diaspora e Wickr Me.

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.

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