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Blog Porta 23

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A Apple tem muito a ganhar com a cruzada pela proteção de dados pessoais

Cristina De Luca

21/01/2019 09h41

A semana que passou foi marcada pelo recrudescimento dos esforços de Tim Cook, CEO da Apple, em posicionar a empresa como a defensora número um da privacidade e da proteção dos dados pessoais. Depois do grande outdoor no CES 2019,com a mensagem "O que acontece no seu iPhone fica no seu iPhone", o executivo escreveu um artigo na revista Time no qual pede aos legisladores norte-americanos que aprovem legislação de privacidade que permita aos consumidores ver e excluir dados pessoais coletados.

"Acreditamos que a Federal Trade Commission deve estabelecer uma câmara de compensação de dados", exigindo que todos os corretores de dados se registrem, permitindo que os consumidores possam rastrear as transações que agregaram e venderam seus dados e também excluir seus dados sob demanda de forma livre, fácil e online, de uma vez por todas, disse Cook no artigo. "Em 2019, é hora de defender o direito à privacidade – sua, minha, de todos nós. Os consumidores não deveriam ter que tolerar por mais um ano empresas que acumulam irresponsavelmente perfis de usuários, violações de dados que parecem fora de controle e a capacidade de controle de nossas próprias vidas digitais", continua.

Um dos maiores desafios na proteção da privacidade, segundo Cook, é que muitas das violações decorrentes da coleta e uso indiscriminado dos dados pessoais são invisíveis. Nos últimos meses, ele tem criticado duramente os rivais, como o Facebook e o Google, por modelos de negócios que são construídos em torno da coleta e monetização de dados pessoais. Chegou a dizer, em um discurso em Bruxelas, que os dados pessoais dos consumidores "estão sendo armados contra nós com eficiência militar" pelo que chamou de "complexo industrial de dados".

É inegável que Tim Cook e a Apple estão do lado certo da questão da privacidade. Mas também é inegável que, na atual configuração de forças do mercado de tecnologia, a Apple tem muito a ganhar com a cruzada pela proteção de dados pessoais, nesse momento em que, como bem disse Bob O'Donnell, da Technalysis Researchers, em reportagem do Economic Times, "todos nós começamos a nos tornar dolorosamente conscientes de quão grande (e de longo alcance) é o problema da privacidade de dados".

O modelo de negócios da Apple coloca-a em uma posição diferente em relação à privacidade do que outras empresas de tecnologia. "Se os consumidores forem informados sobre como seus dados estão sendo usados ​​e se tiverem a chance de desativá-los ou excluí-los, isso causaria estragos em empresas como o Facebook e o Google, que dependem da mineração de dados dos usuários para gerar todos os seus lucros. A Apple, por outro lado, gera a maior parte de sua receita através de uma relação cliente-vendedor (vendendo iPhones) e, por causa disso, não seria afetada por uma câmara de compensação de dados", argumenta Marty Puranik, CEO da Atlantic.net, fornecedora de serviços em nuvem para empresas ao USA Today.

Mais do que isso…

Como temos visto, a competição entre as gigantes da tecnologia está aumentando, com invasões mútuas de territórios historicamente dominados por uma ou outra. Não é diferente com a Apple. O Google está fabricando smartphones, a Amazon está concentrada no hardware doméstico, o mercado de wearables está saturado e assim por diante.

Uma das fortalezas da Apple sempre foi o controle da empresa sobre seu software e hardware. O que deu a ela um ecossistema de produtos que funcionam perfeitamente entre si. Acontece que, de uns tempos para cá, esse modelo de negócios da Apple, fechado em seu próprio ecossistema, começa a dar sinais de fraqueza. Ele já não consegue fazer frente ao pujante ecossistema construído pelo Google em torno do Android. Na minha humilde opinião, uma engrenagem de coleta de dados bem mais perigosa que o demonizado Facebook.

A Apple também não oferece hoje o mesmo nível de experiência em IA que outros gigantes da tecnologia. Hoje, empresas inovadoras usam Inteligência Artificial e simulação massiva para criar novos produtos e serviços. É uma revolução possibilitada pelos dados. O domínio da IA é outra vantagem construída pelo Google justamente por conta da enorme quantidade de dados da qual dispõe. Seus engenheiros conseguiram ultrapassar a concorrência porque coletaram e analisaram dados ditos anônimos de bilhões de usuários. Frear essa coleta, portanto, seria um bom negócio.

Além disso, é sabido que a Apple está de olho no setor de saúde, onde a proteção de dados é crítica. Não por caso, Tim Cook deixa claro em seu artigo na Time que "a tecnologia tem o potencial de continuar mudando o mundo para melhor, mas nunca alcançará esse potencial sem a plena fé e confiança das pessoas que o usam". E confiança é, sem dúvida, o maior dos alicerces do setor de saúde.

À medida que os gigantes da tecnologia continuam a entrar no território da Apple, os serviços de saúde podem ajudar a empresa a diferenciar seus produtos e alcançar seus objetivos principais, que incluem aumentar a venda de hardware de alta margem e expandir suas ofertas de serviços (Apple Cloud, App Store, etc.), diz um relatório recente da CB Insights sobre a enorme oportunidade que o mercado de saúde é para a empresa.

"A Apple vê a saúde e o bem-estar como parte essencial de suas estratégias de aplicativos, serviços e wearables. Agora, a empresa tem como objetivo tornar-se seu registro pessoal de saúde, entrando em pesquisas, dispositivos médicos e muito mais", explica a CB Insights.

Segundo os autores do relatório, embora a área da saúde possa parecer uma área fora da expertise da Apple, ela tem muitas vantagens relevantes para ocupar um lugar de destaque nesse mercado, sendo a marca Apple uma das maiores.

Contra o Facebook, a disputa é pela a atenção e a lealdade dos clientes dos mensageiros, especialmente nos Estados Unidos. De um lado, Messenger e WhatsApp, do outro, o iMessage. Meses atrás o Facebook lançou o Portal, seu primeiro produto de eletrônicos de consumo. O aparelho de videoconferência usa IA e alguns truques interessantes de voz e câmera para entender quem está falando. E rastreia o assunto em tempo real com fotografia de grande angular. Os pais fora da cidade com o trabalho podem ler histórias de ninar para seus filhos com uma implementação inteligente de realidade aumentada. E o Alexa da Amazon está embutido… O Portal um concorrente e tanto para o FaceTime.

Já a frente  frente aberta contra a Amazon é pelo streaming de música. O serviço de música tem ajudado a Amazon a diferenciar o Echo e a Alexa da concorrência,  segundo Steve Boom, chefe da Amazon Music. Estima-se que 74 milhões de americanos tenham alto-falantes inteligentes, de acordo com a empresa de pesquisa eMarketer, com a Amazon e a Google controlando a maior parte do mercado. Um dos receios dos clientes é que esses dispositivos estejam sempre ouvindo, potencialmente colocando em risco a privacidade.

Por fim, embora a proteção de privacidade da Apple seja superior a de seus rivais, ela não é isenta de falhas. Usuários do iPhone na China, por exemplo, são muito menos protegidos do estado bisbilhotando do que os seus homólogos americanos. E o atraso da Apple em implementar a autenticação de dois fatores provavelmente contribuiu para o alto perfil das contas do iCloud serem comprometidas no infame vazamento de fotos do Celebgate. "Se a Apple quiser viver de acordo com o pleno significado das palavras que foi estampada na lateral de um prédio esta semana, ela deve garantir que suas proteções de privacidade sejam impenetráveis ​​e se apliquem com igual força em todos os lugares do mundo", ressalta reportagem do The Verge.

Esta semana, A Apple se viu no rol de oito empresas de tecnologia mencionadas em uma queixa apresentada na Áustria pela organização sem fins lucrativos NOYB, que citou o descumprimento do Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Européia (GDPR). Nenhum deles respondeu aos pedidos de informação sobre os dados dos usuários que coletam e mantêm. Um dos direitos assegurados pelo regulamento.

De fato, a cruzada da Apple pela privacidade e a proteção de dados seria mais efetiva se a empresas estivesse com a casa em ordem.

Vale lembrar que, ao defender a lei federal de proteção de dados em debate no Congresso americano (um primeiro rascunho foi proposto na semana passada), Cook argumentou que eles deveriam priorizar quatro pontos: a minimização de dados, a transparência em relação ao que está sendo coletado, o direito de acessar esses dados, e o direito à segurança do dado mantido nas bases das empresas.

Portanto, no cômputo geral, a privacidade pode ser tornar a galinha dos ovos de ouro da Apple, como afirma Talal Shamoon, CEO at Intertrust Technologies.

Tim Cook é muito bom em rebranding. Metodicamente, como em tudo o que faz, está mudando a narrativa em torno da privacidade para seu benefício., opina Jon Markman, presidente da Markman Capital Insight, em artigo publicado meses atrás na Forbes.  Concordo com ele.

Privacidade e proteção de dados são hoje ativos tão importantes para a Economia Digital quanto os próprios dados. Tim Cook fincou sua bandeira. Agora precisa sustentar o discurso, tornando a Apple exemplar. E isso inclui fazer bem mais que lançar um portal onde os clientes podem vasculhar todos os dados que a empresa tem sobre eles.

"À medida que vemos mais coisas sendo conectadas, acho que você definitivamente ouvirá as pessoas falando mais sobre segurança e realmente observando como você protegeria os dados", disse a analista Carolina Milanesi, da Creative Strategies. "Mais empresas vão adotar o marketing que a Apple vem fazendo."

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.