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Preocupados com os dados que damos ao FaceApp? Pois ele não é exceção

Cristina De Luca

19/07/2019 21h27

Esta semana, a súbita popularidade do FaceApp, o aplicativo russo de edição de fotos que usa Inteligência Artificial para retocar o rosto dos usuários _ e no caso do filtro mais recente, o #AgeChallenge, envelhecê-los _ deixou muita gente preocupada, depois que alertas sobre as permissões de acesso e coleta de dados pedidas por ele _ e aceitas por todos que o instalaram e usaram, quase sempre de forma descuidada, sem leitura prévia dos termos de uso e da política de privacidade _ começaram a circular.

A Wireless Lab, empresa russa que administra o FaceApp, tem o direito de usar suas fotos, nome e imagem para qualquer finalidade. Ao usar o app, concedemos a ela uma "licença perpétua, irrevogável, não exclusiva, isenta de royalties, global…" e por aí vai, como bem explica o diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ, Carlos Affonso, no blog Tecfront. Isso para fazer o que bem entender com os nossos dados: "usar, reproduzir, modificar, adaptar, publicar, traduzir, criar trabalhos derivados, distribuir, executar publicamente e exibir [nosso] Conteúdo do Usuário e qualquer nome, nome de usuário ou imagem fornecida em conexão com o [nosso] Conteúdo do Usuário em todos formatos de mídia e canais agora conhecidos ou desenvolvidos posteriormente."

E se há algo que nós todos aprendemos _ ou deveríamos ter aprendido _ sobre aplicativos virais do Facebook, é que os dados que eles coletam nem sempre são usados ​​para os propósitos que supomos. O escândalo envolvendo a Cambridge Analytica deixou isso bem claro. Ainda assim, teimamos em negligenciar o uso dos  próprios apps e  até mesmo das plataformas que os suportam.

A Wireless Lab pode estar mantendo uma montanha de metadados e e informações de dispositivos para fins de marketing e segmentação de anúncios. Supondo que isso seja verdade, ela não estaria fazendo nada tão diferente do que já acontece com serviços como o Facebook.

Você já leu a política de privacidade da rede social? Diz lá:

"Coletamos o conteúdo, comunicações e outras informações que você fornece quando usa nossos Produtos, inclusive quando você se cadastra para criar uma conta, cria ou compartilha conteúdo, envia mensagens ou se comunica com outras pessoas. Isso pode incluir informações presentes ou sobre o conteúdo que você fornece (como metadados), como a localização de uma foto ou a data em que um arquivo foi criado. Isso pode incluir também o que você vê por meio dos recursos que fornecemos, como nossa câmera, de modo que possamos realizar ações como sugerir máscaras e filtros de que você pode gostar, ou dar dicas sobre o uso de formatos da câmera."

O Facebook também usa as informações que tem "para realizar e apoiar pesquisas e inovação sobre tópicos relacionados a bem-estar social geral, avanço tecnológico, interesse público, saúde e bem-estar".

Ou seja, a rede social pode usar as nossas imagens para melhorar o seu algoritmo de reconhecimento facial, exatamente como supomos que a Wireless Lab está fazendo. A capacidade do FaceApp de ajustar e alterar a imagem de um rosto é baseada em uma rede neural treinada a partir de um banco com várias fotos. Faz sentido que a empresa continue a alimentar mais imagens para ajustar suas capacidades ou criar mais recursos de modificação de face que o aplicativo ainda não possui.

E embora a Wireless Lab tenha se preocupado em dizer em sua política de privacidade que as informações coletadas pelo app não serão vendidas, também alerta que elas podem ser franqueada ao uso de terceiros (empresas do próprio grupo controlador da Wireless Lab e parceiros, desde comprometidos com "termos de confidencialidade razoáveis".

Muitos sistemas de análise de face comercial são treinados em bancos de dados de código aberto que se parecem muito com o que o FaceApp pode estar mantendo.

Em maio, um aplicativo de compartilhamento de fotos, chamado Ever, ganhou as manchetes depois de usar os dados de seus clientes para treinar algoritmos de reconhecimento facial que foram então vendidos para empresas como a SoftBank.

Em janeiro deste ano a IBM divulgou uma coleção de quase um milhão de fotos  retiradas do site de hospedagem de fotos Flickr e codificadas para descrever a aparência dos assuntos. A IBM promoveu a coleta para pesquisadores como um passo progressivo para reduzir o viés no reconhecimento facial. A empresa garante que usuários do Flickr podem optar por sair do banco de dados. Mas o processo de retirar não é tão simples, segundo reportagem da NBC.

Moral da história: qualquer pessoa preocupada com o FaceApp deve se preocupar com todo o ecossistema de aplicativos digitais com termos de uso e políticas de privacidade mais amplos que o necessário para o seu funcionamento. Eles são escritos para compartilhar o mínimo possível o que uma empresa está realmente fazendo com seus dados e protegê-las de potenciais responsabilidades legais.

Até agora, os especialistas em segurança não detectaram nenhuma prática incomum com a versão atual do FaceApp, mas como em todos os aplicativos, devemos estar cientes de nossa completa falta de controle ao compartilhar fotos e outros dados pessoais, especialmente em apps com tantos direitos sobre eles.

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Vale lembrar que, em relação a parceiro como a Wireless Lab, o Facebook  mudou sua política de privacidade e inclui nela uma observação dizendo estar " restringindo ainda mais o acesso de desenvolvedores" para evitar abusos. Como exemplo, a rede social cita a suspensão de acesso dos desenvolvedores aos dados que compartilhamos lá e no Instagram, se não usarmos os aplicativos deles por três meses. O Facebook também diz estar reduzindo os dados que esses aplicativos poderão solicitar, isentos de análise, liberando apenas nome, biografia e nome de usuário do Instagram, foto do perfil e endereço de email. A solicitação de qualquer outro dado exige a aprovação prévia da rede social.

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Já o FaceApp disse ao TechCrunch que os usuários podem solicitar a exclusão de dados usando o recurso "reportar um bug" dentro do aplicativo.

Veja o que você precisa fazer:

  1. No FaceApp, vá em Configurações no canto superior esquerdo e, depois, em Suporte.
  2. Clique em "Reportar erro e enviar registros".
  3. Peça que seus dados sejam excluídos e não se esqueça de incluir a palavra "privacidade" na solicitação.

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Se você não percebeu que tipo de permissões você estava dando FaceApp, você não está sozinho. De acordo com uma pesquisa da Nixplay, uma empresa de fotogramas inteligentes, 50% das pessoas não analisam os dados que um aplicativo pode acessar quando o baixam.

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.

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