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Mais um expoente da academia brasileira figura no Hall da Fama da Internet

Cristina De Luca

28/09/2019 12h54

O cientista de redes Michael Stanton é o mais novo representante do Brasil no Hall da Fama da Internet. A cerimônia de premiação, realizada pela Internet Society, ocorreu nesta sexta-feira (27), na Costa Rica. Os participantes de 2019 são reconhecidos por suas contribuições ao crescimento da internet em todo o mundo.

Michael recebeu a homenagem na categoria "Conectores Globais", que reconhece indivíduos que fizeram "contribuições significativas para o desenvolvimento e a expansão do uso da internet em uma escala global". Pouca gente sabe, mas foi ele, representando a PUC-Rio, que solicitou e recebeu da IANA (Internet Assigned Numbers Authority) o primeiro endereço IP registrado em nome de uma instituição brasileira.

"Trabalhava com o Marcelo Frutig, que cuidava da rede do RDC, da PUC, e depois de uma conversa sobre tendências tecnológicas resolvemos enviar o pedido de um bloco de endereços IP à IANA. Mas não tivemos resposta. Até hoje
não sabemos por quê. Ainda não tínhamos correio eletrônico na PUC. Por isso, só um ano depois, olhando a lista mundial de endereços IP, descobrimos que o nosso já havia sido concedido", me contou anos atrás.

O número? 139.82.0.0. Um IP classe B, o que à época era bastante comum para grandes instituições. A PUC-Rio se conectou à Internet em abril de 1991. O circuito de 2.4 Kbp/s entre o LNCC e a FAPESP, que faria parte do futuro backbone RNP a ser financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, já havia sido instalado. Esta conexão direta entre a FAPESP e o LNCC entrou para história da rede acadêmica como início da criação de uma nova malha nacional de comunicação de dados e o marco do primeiro anel de enlace redundante da rede brasileira, já que havia uma conexão indireta entre essas duas cidades, a partir de Belo Horizonte.

Naquela ocasião, coube a Michael também defender a adoção do padrão TCP-IP no Brasil. O governo brasileiro havia optado pelo padrão OSI (Open System Interconnection), registrado desde 1988 como norma ABNT. A Telebrás (que controlava as estatais de telefonia) havia conseguido formalizar a POSIG (Política OSI de Governo) para comunicação de dados, que estipulava a aquisição de equipamentos que suportassem o padrão OSI. A tendência de considerar o TCP/IP apenas como alternativa imperou até o TCP/IP também passar a ser considerado um "padrão aberto".

Em agosto de 1990, já ocupando o posto de coordenador de P&D da RNP, Michael divulgou uma proposta de evolução para a rede acadêmica através da lista de discussão REDES-L@BRFAPESP. O documento defendia a adoção da tecnologia TCP/IP como protocolo padrão. Para acomodar todos os interesses, a RNP começou a sair efetivamente do papel, em meados de 1991, usando roteadores multiprotocolos (OSI – TPC/IP), a partir da criação das redes estaduais. Entre 1991 e 1993 a RNP concentrou recursos e esforços na montagem da espinha dorsal (backbone) que permitisse a implantação de um serviço de rede distribuído por todo o país, que foi o embrião da internet brasileira. Michael participou da coordenação deste projeto entre 1990 e 1993.

Hoje Michael Stanton atua como cientista de redes da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), que ajudou a criar. Depois de um breve período afastado, retornou à estrutura da RNP em 2002 e lá permaneceu até 2018,  atuando como diretor de Inovação e novamente como diretor de Pesquisa e Desenvolvimento. Entre os projetos de rede pioneiros que coordenou no país estão o redesenho das redes internas da PUC-Rio (1992) e da UFF (1998 – a primeira rede mesh brasileira), da Rede-Rio (fases Bitnet e Internet entre 1989 e 1992), a rede experimental em fibra óptica do projeto GIGA (2003-08), a rede metropolitana de Belém do Pará (MetroBel, considerada protótipo das redes comunitárias de educação e pesquisa, a Redecomep), e da fase 6 do backbone nacional da RNP.

Michael também vem contribuindo para a inserção da RNP na comunidade internacional das redes acadêmicas, especialmente por meio da evolução desde 2003 da Rede Clara, um backbone regional, que interconecta as redes acadêmicas da América Latina; e do acesso aos EUA, e portanto ao resto do mundo, em colaboração em sucessivos projetos com a Florida International University (FIU) desde 2004. Atualmente, Michael participa no projeto AarcLight, com financiamento da NSF e liderado pela FIU, que está instalando em 2019 nova rota internacional entre Brasil e África do Sul. Também participa do projeto BELLA, que constrói o novo backbone óptico escalável da RedCLARA, e será conectada diretamente às redes da Europa por meio do futuro cabo submarino EllaLink entre Brasil e Portugal a partir de 2021.

Outros brasileiros ilustres

O Hall da Fama da Internet reconhece indivíduos em todo o mundo que desempenharam um papel extraordinário na conceituação, construção e desenvolvimento da Internet global. Além daqueles que foram mais visíveis, reconhece aqueles que fizeram contribuições cruciais nos bastidores.

"Em última análise, o sucesso da internet depende das pessoas nos bastidores", observou certa vez Kathy Brown, que atuou como Presidente e CEO da Internet Society de 2014 a 2018. "Eles personificam o espírito pioneiro fundamental para a disseminação da Internet. São alguns dos primeiros evangelistas da rede e seu trabalho, a base para muitas das inovações digitais que vemos hoje".

Os critérios para avaliação incluem:

Impacto – A contribuição teve um impacto extraordinário no desenvolvimento ou crescimento da Internet e foi e pode ainda ser diretamente relevante para o contínuo progresso e evolução da Internet.

Influência – A contribuição, relativa à Internet, influenciou significativamente: 1) o trabalho de outras pessoas no campo; 2) sociedade em geral; ou 3) outro público ou região mais definido, porém crítico.

Inovação – A contribuição abriu um novo caminho com o pensamento/criatividade original, que estabeleceu novos paradigmas, eliminou obstáculos significativos ou acelerou os avanços da Internet.

Alcance – A contribuição impactou significativamente o alcance da Internet entre a sociedade em geral, dentro dos principais públicos ou geografias específicas, com impacto global.

Michael Stanton é o terceiro a receber o reconhecimento da Internet Society em nome do Brasil, depois de Demi Getschko, Conselheiro do Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br), em 2014; e Tadao Takahashi, o primeiro Coordenador do Projeto RNP, em 2017.

Demi, atual Diretor do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e conselheiro do Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br), foi nomeado no dia 8 de abril de 2014, em Hong Kong, também na categoria "conectores globais".  Ele foi do time que estabeleceu a primeira conexão de internet no Brasil, entre a Fapesp e a Energy Science Network, em 1991 , exerceu papel fundamental na definição do sistema de nomes e domínios no país e das regras que regem os registros brasileiros.

Também teve papel crítico na arquitetura da Rede ANSP (Academic Network at São Paulo) que, inaugurada em 14 de abril de 1989, conectou a Fapesp ao Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab), localizado em Batavia, Illinois, nos Estados Unidos, e, por intermédio deste, à Bitnet (acrônimo de Because it's time to Network), rede utilizada na época pelos serviços de correio eletrônico e transferência de arquivo entre instituições de pesquisa.

A conexão do Brasil à internet começou a ser planejada em 1990, quando Demi descobriu que o Fermilab pretendia adicionar aos protocolos existentes também o TCP/IP (protocolo de internet), ligado a um backbone chamado Energy Science Network (ESNet).

Já Tadao Takahashi ingressou no Hall da Fama em 2017. Ele foi o articulador de muito dos esforços comentados aqui junto ao governo brasileiro. Sem ele, talvez da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa não tivesse saído do papel.

"O Tadao devia ser um capítulo à parte na história da Internet. Ele é responsável, no CPF dele, pela construção da Internet brasileira a partir da RNP. Teve coragem cívica", me disse o professor Sílvio Meira anos atrás.

Entre 1988 e 1996 Tadao foi o primeiro coordenador-geral da RNP, e entre 1999 e 2003 foi também o coordenador-geral do Programa Sociedade da Informação da Presidência da República, que gerou o Livro Verde do Governo Eletrônico.

É considerado um dos principais influenciadores do modelo regulatório da Internet, e de sua definição como um serviço de valor adicionado, acima da camada do serviço de Telecomunicações. Na década de 90 comentou a proliferação de provedores de acesso que permitiu que a Internet não fosse, no momento de surgimento de seu uso comercial no pais, entre 1994 e 1995, monopólio de comunicação de dados da Embratel.

Em tempo: Fundada por pioneiros da internet, a Internet Society (ISOC) é uma organização sem fins lucrativos dedicada a garantir o desenvolvimento aberto, a evolução e o uso da Internet. Trabalhando em uma comunidade global, a Internet Society colabora com uma ampla gama de grupos para promover as tecnologias que mantêm a Internet segura e protegida e defende políticas que possibilitam o acesso universal. A Internet Society também é a sede organizacional da Internet Engineering Task Force (IETF).

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.

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