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Mais serviços e carros elétricos: o futuro do setor automotivo brasileiro

Cristina De Luca

06/10/2019 13h42

A indústria automotiva está passando por grandes transformações impulsionadas por três forças disruptivas: os veículos elétricos e com células combustíveis alternativas; os veículos conectados e autônomos e os serviços de mobilidade por demanda. Duas dessas forças destacam-se no futuro ecossistema de mobilidade brasileiro, segundo o capítulo brasileiro da Pesquisa Executiva Automotiva Global (GAES).

"Realizada há vinte anos em âmbito global, estamos inaugurando a primeira edição dessa pesquisa com foco no Brasil", diz Ricardo Bacellar, Líder do setor Automotivo da KPMG no Brasil. "As questões mais desafiadoras estão associadas com a necessidade de reinventar, repensar, reconstruir e reorganizar as estruturas existentes, inclusive identificando novos fluxos de receita", completa.

Serviços de assinatura de veículos em alta

É grande o interesse dos brasileiros pelo serviço de assinatura de veículos, onde se paga uma mensalidade pelo uso de um carro por um determinado período. Praticamente 80% dos 1004 consumidores brasileiros ouvidos pela KPMG disseram que se as montadoras oferecessem veículos por assinatura (em vez de compra ou financiamento), essa opção seria bem-vinda. Pouco mais de 39% disseram estar dispostos a aderir a este tipo de serviço. E 47,86% que seria ótimo ter a possibilidade de ter um veículo por assinatura e poder decidir pelo cancelamento quando não interessar mais.

A modalidade é oferecida nos país desde 2017, mas chegou pelas mãos das seguradoras e locadoras. Acabou não sendo muito popular porque não era muito vantajoso em relação à aquisição, mesmo considerando os custos de depreciação, taxas e impostos embutidos na compra de um carro. Agora, mais plataformas independentes estão introduzindo novos modelos de negócios e operacionais que têm chamado atenção.

Por outro lado, a perspectiva de contratar funções acessórias, tais como GPS e potência adicional, e pagá-las pelo tempo de uso, foi tratada com bem menos entusiasmo. Ao mesmo tempo em que 40% dos consumidores acreditam que seria ótimo contar com essa possibilidade, quase 35% dos respondentes rejeitaram a ideia.

"Tem muito dinheiro em cima da mesa que não tá sendo explorado. E as empresas de tecnologia estão ávidas por descobrir oportunidades de negócio nesse cenário de mobilidade brasileiro. Elas são mais rápidas, mais capitalizadas, e conhecem melhor os consumidores do que as montadoras", comenta Bacellar, lembrando que a Amazon já iniciou os testes de um serviço de locação de veículos na Espanha. "Se o teste for positivo, o que a impediria de fazer o rollout desse serviço para o mundo todo? Ela conhece o consumidor como ninguém, tem uma capacidade de investimento absurda, sabe tudo de logística e domina tecnologia à beça. A indústria precisa ficar mais antenada nesses movimentos", explica.

Cabe à indústria automotiva uma profunda reflexão sobre o potencial de estruturar uma linha de serviços com tais características, a curto/médio prazo, especialmente considerando o risco de um outsider se posicionar primeiro neste mercado. "Até porque estamos falando do quinto maior país em população do mundo, com uma carência de ofertas de transporte absurda. Portanto, há um potencial de negócios gigantesco, de negócios de ticket médio baixo, ao contrário da compra de um veículo, e altamente escalável", explica Bacellar. "Cada potencial consumidor pode usar uma infinidade de serviços de mobilidade por dia, enquanto, com muita boa vontade, você vai considerar que um potencial consumidor de um veículo vai comprar quantos por ano? Por um, por dois, três…"

Uma outra pesquisa global da KPMG que aferiu que o potencial de receita revelou que ecossistema de mobilidade tem potencial de geração de receita cerca de dez vezes mais do que o modelo atual, com praticamente 50% dessa receita tendo origem em novos serviços.

Se pode haver algum alento para os consumidores, a pesquisa da KPMG no Brasil revelou que a maioria dos executivos da indústria automotiva do Brasil (72%) concorda que as montadoras passarão a gerar mais receitas com a prestação de serviços na próxima década. Para aqueles que estão de acordo com esta questão, 94% concordam plenamente que avaliar a participação no mercado com base apenas em vendas unitárias é um método que será revisto nos próximos anos.

Historicamente, o setor de transporte opera ao longo de cadeias de valor amplamente lineares. Tudo isso está mudando. Vários setores estão convergindo, ansiosos para obter receita oportunidades em um novo ecossistema de mobilidade. Entre eles o de telecom, de finanças, de tecnologias digitais, de saúde, de mídia e de varejo.

"Vou te dar um exemplo real. O Sem Parar é um produto financeiro que ganha dinheiro no setor automotivo. Quanto da receita do Sem Parar vai pra indústria automotiva? Quanto dos dados que circulam naquelas tags, que ficam mapeando o nosso percurso de deslocamento, vão pra indústria automotiva? Você sabia que o Sem Parar foi vendido, depois de sete anos de operação, por cinco bilhões de reis para uma empresa americana? A indústria automotiva não viu nem um centavo desse novo negócio", comentou Bacellar.

Se deixar, as startups vão consumir boa parte aí das oportunidades no mercado de mobilidade porque estão acostumadas a serem mais ágeis.

Além disso, as pesquisas de mercado têm apontado a importância cada vez maior de posicionar o cliente no centro da estratégia de negócios das empresas e, por isso, observa-se uma tendência consistente de adoção de metodologias de customer experience e data analytics que permitam um melhor entendimento do comportamento dos consumidores para lhes proporcionar uma experiência de compra mais customizada e assertiva.

Um dos naturais obstáculos para a eficiência de qualquer estratégia customer centric é o grau de dificuldade de acesso às informações dos clientes que irão alimentá-las. Perguntados sobre a disposição de dar acesso aos seus dados de forma gratuita, em troca de atendimento personalizado e de maior qualidade, penas 31,37% dos consumidores ouvidos pela KPMG se mostraram contrários e metade se posicionando favoravelmente. Os demais se disseram indecisos.

Interesse por carros elétricos é alto também

A pesquisa da KPMG no Brasil também revelou que 90% dos consumidores gostariam de ter automóveis desse tipo à disposição para compra no país.

"A gente vê pelas respostas dos consumidores que o veículo elétrico tem um poder de sedução muito grande. E isso porque só uma parte minúscula da população já teve oportunidade e sentiu a experiência de dirigir um veículo elétrico", comenta Bacellar.

Os resultados deixam claro também que o fato de passar a ter um veículo tecnologicamente mais moderno, que seja diferenciado, pode reverter a tendência de substituição da posse do carro pela adoção dos serviços de mobilidade.

As perguntas sobre veículos elétricos foram as que demonstraram maior desconexão entre os dois públicos participantes da pesquisa. Boa parte dos 250 executivos demonstrou ceticismo sobre a viabilidade de produção e oferta desses produtos no mercado local, pelo menos no curto prazo. Apenas 46% deles concordam parcialmente que há viabilidade desta oferta no Brasil e somente 42% concordam parcialmente que há viabilidade de produção local.

Para tonar os veículos elétricos ainda mais atrativos, consumidores e empresários defendem a implementação de políticas de incentivo que tenham por objetivo principal baratear o custo de aquisição.

"De fato, é preciso envolver o governo nessa discussão porque. Não há nenhum país no mundo que esteja se vivendo essa transição para uma frota eletrificada onde o governo esteja distante desse movimento", comenta Bacellar.

O Brasil pode inclusive se destacar no desenvolvimento e produção de células combustíveis.

"A gente entende que no curto e médio prazo, o híbrido tem tudo para ser vencedor no Brasil e, a longo prazo,  os veículos de célula de combustível com etanol", diz Barcellar. "Percorri vários centros de pesquisa da região de Campinas e fiquei impressionado com o domínio tecnológico que já existe sobre o assunto. O que falta realmente é dinheiro, é investimento", conclui.

Mais da metade dos executivos entrevistados (53%) ocupam cargos de alta gestão (Conselho de Administração, Presidência, Vice-Presidência e Diretoria). Quanto ao nicho de atuação, sobressaiu a participação das montadoras (37%), seguidas pelos sistemistas (19%), concessionárias (11%) e fornecedoras tiers 2, 3 e 4 (10%). Em relação aos resultados financeiros, mais da metade (53%) dos respondentes atuam em companhias com receita anual superior a R$ 1 bilhão.

Sobre os consumidores entrevistados, a grande maioria deles (70%) mora na região Sudeste, 61% têm renda média em comparação com pessoas do seu entorno e 96% têm grau de formação superior ou pós-graduação. Em relação à faixa etária, a maioria tem entre 25 e 40 anos (60%).

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.

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