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Algoz do Facebook, e da Libra, Maxine Waters pressiona Zuckerberg

Cristina De Luca

24/10/2019 18h22

Foram mais de seis horas de intenso interrogatório por membros do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos EUA nesta quarta-feira. Ao final, uma certeza: Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, tem uma nova algoz.

Seu nome? Maxine Waters, a poderosa congressista da Califórnia que preside o comitê e que tem, entre suas grandes preocupações, uma provável rivalidade entre o dólar e a Libra, a criptomoeda do Facebook, vista como uma ameaça à hegemonia americana.

Waters pode desempenhar um papel fundamental na decisão do destino do esforço ambicioso do Facebook para criar uma nova moeda global. Partiu dela o pedido para que o Facebook interrompa seus planos de lançar sua criptomoeda. Partiu dela também a transformação da audiência em um escrutínio mais amplo, sobre o enorme poderio da rede social e demais serviços sobre o controle de Zuckerberg na vida dos americanos e ainda as acusações de comportamento monopolista, violações de privacidade, violações na segurança das eleições e se o governo deve desmembrar o Facebook.

Pessoas familiarizadas com suas prioridades dizem que ela está especialmente preocupada com as suspeitas de que o Facebook permitiu que empresas imobiliárias segmentassem publicidade de vendas de residências discriminadas por raça, religião e nacionalidade.

"A audiência foi como planejada", disse Waters a repórteres logo depois de encerrado o encontro. "Disse a ele [Zuckerberg] que não seria confortável para ele", comentou a congressista. "Não acho que ele deva seguir adiante com esse grande projeto e essa grande ideia, com todas as outras preocupações não tendo sido resolvidas", completou, referindo-se aos sucessivos escândalos envolvendo a rede social pós-revelações da atuação da Cambridge Analytica nas eleições americanas.

Na opinião de Waters, o Facebook permitiu que a Rússia interferisse nas eleições de 2016. Agora ela está preocupada com a possibilidade de o mesmo vir a acontecer em 2020, especialmente após a decisão da rede social de parar de verificar a veracidade dos anúncios políticos veiculados na plataforma.

Em um extenso perfil da congressista democrata, Christopher Stern, do site The Information, a descreve como firme e franca. Há pouco mais de 28 anos na Câmara dos Deputados dos EUA, ela é profunda conhecedora de questões essenciais do setor de serviços financeiros, como risco sistêmico, seguro contra inundações e regulamentação de valores mobiliários. Mas também já promoveu uma agenda mais próxima aos direitos dos consumidores e direitos civis. Pontos em que o Facebook vem sistematicamente pisando na bola.

O fato da Libra ser liderada por uma BigTech  que frequentemente atropela a privacidade do consumidor é uma grande preocupação, mesmo que salvaguardas tenham sido adotadas para manter o gigante da mídia social à distância.

Sobre a Libra

O anúncio da Libra foi recebido por Waters com uma declaração solicitando que o Facebook concordasse em suspender todo o trabalho relacionado à criptomoeda até que o Congresso e os reguladores tivessem a oportunidade de examinar algumas questões e tomasse medidas. Foram três solicitações seguidas, ignoradas por Zuckerberg e seus executivos, que culminaram com a convocação da audiência durante a qual Zuckerberg se recusou a concordar com uma moratória completa sobre o desenvolvimento da Libra, apesar de ter afirmado, seguidamente, que não apoiaria o lançamento da criptomoeda até atender a todas as preocupações regulatórias dos EUA.

O CEO do Facebook também fez questão de alertar os congressistas que, se os EUA não permitissem o lançamento de uma criptomoeda, a China venceria em mais essa frente, uma vez que vem se movendo rapidamente para lançar uma versão digital de sua moeda nos próximos meses, com a intenção de "exportá-la" para todo o mundo.

"Os reguladores devem ver a Libra como um instrumento do poder geopolítico americano", argumentou Zuckerberg, várias vezes. "A Libra será apoiada principalmente por dólares e acredito que estenderá a liderança financeira da América, bem como nossos valores democráticos e supervisão em todo o mundo. Se os EUA não inovarem, nossa liderança financeira não será garantida", disse.

Acontece que a descrição da Libra como um sistema "rodando em cima de" moedas existentes, em vez de substituí-las – isto é, um token digital apoiado por uma cesta de ativos, incluindo dólares, euros, ienes e similares – foi exatamente o que assustou os políticos e os Bancos Centrais de diversos países..

"Uma poderosa criptomoeda apoiada pelo setor privado teria todos os tipos de consequências na aplicação de sanções econômicas ou regulamentação do comércio global, bem como na capacidade dos bancos centrais de responder a crises ou recessões. Libra poderia ganhar grande influência sobre países com moedas fracas ou instáveis ​​que, de outra forma, poderiam se inclinar para o dólar ou o euro", escreveu Lionel Laurent, da Bloomberg.

Em meados de Julho, antes do CEO da Calibra, David Marcus, ser ouvido pelo mesmo comitê da Câmara, Waters distribuiu a minuta de um projeto de lei intitulado "Keep Big Tech Out of Finance Act", que proíbe qualquer empresa de tecnologia com receita superior a US$ 25 bilhões oferecer criptomoedas. Waters ainda não apresentou formalmente o projeto de lei e talvez nunca o faça. Mas a ameaça de fazê-lo deixou uma mensagem clara: o caminho de Libra nos EUA passa pelo comitê presidido por Waters.

Quando perguntada pela reportagem da CNBC se o comitê tomaria medidas regulatórias contra o Facebook e outras empresas de tecnologia, Waters disse: "Temos muito trabalho a fazer. Além de aprender mais sobre Libra e como ela é organizada, conversaremos com os reguladores, alguns dos quais criaram comitês consultivos para falar sobre o que sabem", disse Waters.

"Quando todo esse trabalho estiver concluído, acho que haverá decisões sobre se já temos leis suficientes para lidar com a supervisão, ou se algo precisará ser feito".

Desistências

A Libra vem enfrentando uma série de sérios desafios recentemente, com os principais parceiros desistindo de apoia-la  por conta do severo escrutínio regulatório em todo o mundo.

Em 4 de outubro, o PayPal foi o primeiro a abandonar o barco. Uma semana depois  foi a vez da Visa, Mastercard, Stripe, Mercado Pago e eBay.  E a Brooking Holdings, proprietária dos sites de viagens Booking.com, Priceline e Kayak, se desligou alguns dias depois.

Hoje a Libra Association tem 21 membros, incluindo Uber, Lyft, Spotify, Vodafone e a empresa de capital de risco Andreessen Horowitz. Em uma reunião realizada dias atrás eles assinaram o termo de abertura do projeto e elegeram cinco membros do conselho, um passo simbólico para a moeda digital e a carteira Calibra.

Os membros do conselho são: David Marcus, executivo do Facebook responsável pelo projeto; Katie Haun, sócia da firma de capital de risco Andreessen Horowitz; Wences Casares, CEO da Xapo; Matthew Davie, diretor de estratégia da Kiva; e Patrick Ellis, consultor geral da PayU.

Bertrand Perez, um ex-executivo do PayPal que trabalhou para Marcus em uma startup que ele havia fundado anteriormente, assumiu como diretor interino do grupo. Marcus disse ao "The Information" que a associação procuraria um diretor administrativo com experiência para administrar um banco central, como Federal Reserve.

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.

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