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A Screenomics quer capturar tudo o que fazemos e vemos em nossas telas

Cristina De Luca

19/01/2020 12h34

Já ouviu falar no Human Screenome Project, da universidade de Universidade de Stanford? O nome vem de uma brincadeira com o projeto do genoma humano. Só que, desta vez, o que os pesquisadores querem é sequenciar o nosso DNA digital, única forma de, segundo eles, avaliar os vários efeitos do consumo de mídia digital. O problema, na opinião dos defensores da privacidade, foi o modo que encontraram de chegar ao screenome: capturar tudo o que os voluntários fazem e vêm em suas telas.

Os pesquisadores instalaram um software nos smartphones e laptops dos voluntários que tirava fotos a cada cinco segundos do que acontecia na tela. E enviavam essas capturas de tela para um servidor, para serem analisadas, conforme escrevem nesse paper. Como um dia tem 86.400 segundos, o software pode obter 17.280 capturas de tela, de todas as telas em que está instalado, todos os dias. Mas os pesquisadores o otimizaram para que  faça capturas apenas quando a tela estiver ligada.

A ideia é que, coletivamente, os screenomes possam lançar luz sobre a aparência do uso de dispositivos como smartphones de algo mais significativo do que as métricas usuais até aqui, como "tempo de tela". Em um artigo recente, publicado na Nature", o grupo de pesquisadores argumenta que a onipresença dos dispositivos e o seu uso compulsivo na vida moderna está tornando os métodos e termos tradicionais irrelevantes.

"Tudo o que achamos que sabemos sobre como as pessoas usam a mídia digital pode estar incompleto, irrelevante ou errado", afirma o professor de comunicações de Stanford, Byron Reeves. "Na verdade não sabemos o que as pessoas estão fazendo nesses ambientes digitais complexos".

O projeto está apenas nos estágios iniciais, mas a equipe de Stanford espera que ele mostre como o uso do dispositivo pode fornecer informações sobre questões como o vício em mídias sociais e problemas de saúde mental. O argumento do grupo é o de que o screenomes pode ajudar a encontrar respostas para a preocupação generalizada quanto à interferência do uso diário de dispositivos digitais em questões como o aprendizado e as conexões sociais das crianças, o sono e a aptidão física em pessoas de todas as idades.

O uso continuado que fazemos dos smartphones e computadores prejudica a concentração, leva à ansiedade ou à depressão, reduz nossa capacidade de diferenciar notícias falsas? São perguntas como essas que o novo campo científico, batizado por eles de "Screenomics", espera responder, obtendo uma visão granular da vida digital das pessoas através do que passa pelas telas dos seus dispositivos pessoais.

"Não importa o que você estuda, seja política, dependência, saúde, relacionamentos ou ação climática, se você realmente quer entender as crenças e os comportamentos das pessoas, você realmente precisa olhar para o seu 'roteiro"', porque grande parte de nossas vidas é agora filtrados através de nossos dispositivos digitais", explicou ao site Phys.org o professor de pediatria e saúde infantil de Stanford, Thomas Robinson.

Ele está particularmente otimista de que as conclusões do projeto possam ser usadas para incentivar o uso mais saudável da tela. "Não é apenas dar às pessoas informações sobre o que estão fazendo, mas criar intervenções em torno disso", disse. "Por exemplo, se uma pessoa está lutando para se tornar mais ativa fisicamente, podemos identificar o uso de mídia digital associado a períodos de comportamento sedentário e orientá-los, usando intervenções com tempo preciso e ajustado pessoalmente, em direção a resultados mais saudáveis".

O Stanford Screenomics Lab já coletou mais de 30 milhões de pontos de dados de mais de 600 participantes até o momento, e demonstrou que a maioria das pessoas percorre vastas quantidades de material muito rapidamente, alternando de um segmento para outro a cada 10 a 20 segundos.

Também há boas evidências de que o uso da mídia é altamente idiossincrático e contém tópicos de experiência que abrangem conteúdos radicalmente diferentes que podem fazer sentido apenas para usuários individuais. Não por acaso, os cientistas definem um screenome como "o registro de experiências individuais representadas como uma sequência de telas com as quais as pessoas veem e interagem com o tempo". Assim, o screenome de dois usuários não se parece e o screenome de um único indivíduo parece único, de hora em hora, dia a dia e semana a semana.

"Para ir além , no entanto, precisamos de dezenas de milhares de pessoas gerando ainda mais dados na tela", diz Byron Reeves.

E a privacidade?

O  objetivo do grupo é lançar o Human Screenome Project como um esforço interdisciplinar em larga escala. E aí as questões de privacidade vão precisar ser endereçadas de forma mais clara.

O screenome contém informações privadas substanciais – talvez tanto ou mais que qualquer outro registro individual _ algumas delas, sensíveis. Pense no que passa pelas nossas telas diariamente: informações da conta bancária; emails com dados pessoais; rotas de deslocamento na cidade; textos, fotos e vídeos com amigos e familiares… Até atividades menos nobres (os nudes estão aí mesmo para comprovar).

Na opinião de Andrew Przybylski, diretor de pesquisa do Instituto de Internet de Oxford, em entrevista à MIT Technology Review, as questões de privacidade podem atrasar o projeto: "Acho que é uma abordagem nova, mas fadada ao fracasso se a pesquisa não for fundamentada em ciência aberta robusta, transparente e aberta", disse.

Pode ser… O fato é que, aos poucos, filhotes do projeto começam a brotar, aqui e ali. Um bom exemplo é a ScreenomeX, plataforma que permite que qualquer pessoa veja e compreenda o seu screenome, criada por três empreendedores do Vale do Silício: Ali Jelveh, Marco Buhlmann e Thies Arntzen.

O site da ScreenomeX tem uma área específica, dedicada à responder questões de privacidade, como a exclusão de todos os dados fornecidos, a restrição ao rastreamento em determinados aplicativos ou períodos de tempo e por aí vai.

Vale lembrar que por ser uma empresa da Califórnia, ela deveria estar sujeita às regras da Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia (CCPA, na sigla em inglês). Talvez ela não se enquadre, ainda, por conta da receita e da quantidade clientes, embora venha a ter mais da metade da sua receita originada do tratamento do dados e  a CCPA tenha requisitos adicionais destinados às empresas que atuem na área de saúde e life science, além de obrigações relacionadas à "revenda" de dados.

Ainda não está claro que tipo de base legal para permissão de uso de dados pessoais a ScreenomeX está usando. De acordo com os advogados brasileiros, se operasse na Europa e no Brasil, ela deveria solicitar o consentimento dos usuários, de forma clara e inequívoca, especificando os usos que farão dos dados. É o que o próprio Human Screenome Project faz.

Segundo os pesquisadores, a confidencialidade e os protocolos de privacidade para o screenome requerem que os dados sejam criptografados, anonimizados e armazenados de forma segura; que o compartilhamento seja apenas dentro do laboratório; e que a rotulagem seja feita apenas pelos membros da equipe de pesquisa autorizada a ver os dados brutos. A saída dos módulos de extração de informações e classificação manual complementa as capturas de tela brutas com uma coleção de "metadados" adicionais.

Ainda assim, cerca de um terço das pessoas contatadas para participar da pesquisa recusou-se a continuar após o estudo ser explicado a elas, por temerem violação de privacidade das mensagens de texto, sobretudo. Muitas usavam dispositivos de trabalho para interações pessoais e profissionais, e era impossível para elas arriscarem expor material do empregador.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de produção multiplataforma. É diretora da ION 89, startup de mídia com foco em transformação digital e disrupção. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editora-executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criação e implantação do Globo Online. Foi colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicações do grupo IDG no Brasil. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.

Sobre o blog

Este blog, cujo nome faz referência à porta do protocolo Telnet, que é o protocolo de comunicação por texto sem criptografia, traz as informações mais relevantes sobre a economia digital.

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